Como Funcionam as Criptomoedas?

Se você quer saber como funcionam as criptomoedas, você está no lugar certo. Este é um caminho extremamente fascinante e sem volta. Isso mesmo!


O bitcoin é apenas a primeira entre as várias experiências econômicas a ser bem-sucedida em três coisas: conseguir simular escassez artificial de um bem digital, impedir que um ativo digital possa ser duplicado e resolver o problema do gasto duplo em uma rede descentralizada.

foto artística de moeda bitcoin sobre uma placa de dados que simboliza o blockchain


No entanto, sua origem é libertária e baseada em software livre (seu código-fonte está publicado no GitHub, em (https://github.com/bitcoin/bitcoin), permitindo a qualquer um baixá-lo, fazer mudanças no código de acordo com as suas necessidades e redistribuí-lo, o princípio básico da filosofia do software livre.


Sendo assim, aqueles que, por alguma razão, discordassem das regras estabelecidas pela rede bitcoin poderiam, simplesmente, usar o código-fonte dele como referência, fazer as mudanças que julgassem necessárias e começariam sua própria criptomoeda e sistema financeiro.


Existem hoje milhares de criptomoedas no mercado, embora nem todas elas tenham código-fonte do bitcoin como origem, pois o blockchain do bitcoin possui limitações reconhecidas, como:


  • Pouco espaço em cada bloco para armazenar transações: por armazenar um número limitado de transações por vez (cada bloco pode armazenar apenas 1MB em transações), o alto interesse pela criptomoeda no final de 2017 provocou grandes “congestionamentos” na rede, e uma transação que não pagasse uma taxa de rede significativa aos mineradores, uma espécie de cobrança de DOC/TED, cuja taxa média passou de 50 dólares em dezembro de 2017(BITCOININFOCHARTS, 2019), poderia ter a validação de sua transação adiada em muitas horas ou até mesmo dias.

  • Tempo alto para a validação de cada bloco: por ser fixado em dez minutos, impossibilitaria seu uso para, como dizem os críticos, “pagar um cafezinho”, ou seja, ele é inviável em usos que precisem de uma confirmação em poucos segundos. Embora alguns blockchains que usem o consenso de Nakamoto/prova de trabalho POW tenham diminuído o tempo de geração de bloco, diminuí-lo demais pode resultar em riscos de gasto duplo, logo, ele precisa ser “lento de propósito”.

  • Pouca performance ou escalabilidade: o próprio modelo de blockchain não foi concebido para ter alta performance como bancos de dados que funcionem de maneira distribuída; na verdade, foi concebido para fazer o oposto: uma rede de blockchain possui milhares de computadores fazendo as mesmas tarefas e realizando cópias dos mesmos dados, sendo assim, jamais atingirá a performance de redes de transações dos cartões de crédito. Segundo Vermeulen (2017), enquanto a rede bitcoin é capaz de processar até quatro transações por segundo, a Paypal seria capaz de processar 193 no mesmo tempo e a Visa, 1.667 transações por segundo, em média.

  • Sigilo parcial: embora a segurança do sistema seja garantida pela criptografia, os dados presentes no bloco não são criptografados. As informações são armazenadas em aberto, sendo possível acompanhar o bitcoin desde sua geração, passando por todas as carteiras até o presente momento. Sendo assim, não existe, neste caso, “sigilo bancário”: todas as movimentações são públicas, para quem quiser olhar. O que é mantido em segredo é a identidade dos donos das carteiras, que são identificados com um identificador alfanumérico longo, a chave pública do par de chaves. O sigilo na rede bitcoin é, portanto, parcial, pois o proprietário da carteira é anônimo, mas suas transações são todas conhecidas. É possível identificar o dono da carteira ao cruzar informações adicionais: por exemplo, um e-commerce em que tenha feito compras pagando diretamente com bitcoins; para o e-commerce, portanto, a minha identidade como dono de carteira é revelada.

  • Alto custo para a validação do bloco: o algoritmo baseado em prova de consenso, em que o hash que valida o bloco deve ser “adivinhado” após milhões de tentativas por milhares de fazendas de mineração diferentes, faz com que a energia elétrica despendida para essa tarefa ultrapasse o gasto energético de países inteiros, ou seja, a rede de bitcoin consome mais energia elétrica do que países inteiros. Minerar bitcoins não é exatamente sustentável do ponto de vista ecológico, digamos assim.


Altcoins


Vários grupos que consideram um ou mais desses cincos fatores levantados como problemas sérios a serem resolvidos estão criando suas próprias criptomoedas com propostas diferentes: blocos com mais espaço para a validação de transações, tempos mais curtos para a validação dos blocos, blockchain com arquiteturas diferentes que podem “embaralhar” as transações para que seus participantes tenham mais sigilo, iniciativas visando aumentar o número de transações por segundo e até outros grupos propondo novos algoritmos de consenso, como é o caso do proof-of-stake (POS), cujo modelo dispensa ASICs que gastem tanta energia elétrica.


Dentre milhares de criptomoedas, existem várias iniciativas tecnologicamente interessantes que propõem mudanças como as relatadas, enquanto outras (provavelmente 90% delas) representam apenas esquemas fraudulentos de pirâmide que visam gerar riqueza aos seus criadores, lesando centenas de milhares de pessoas no processo. Nas próximas páginas, vamos abordar algumas criptomoedas que realmente merecem destaque.



Bitcoin Cash (BCH)


O Bitcoin Cash (BCH) é um excelente exemplo de liberdade de ações que projetos abertos mantidos por comunidades proporcionam. A criptomoeda nasceu de um desacordo da comunidade sobre os rumos que o projeto do bitcoin deveria tomar para resolver os problemas de congestionamento da rede e as altas taxas de rede que os usuários estavam pagando como consequência disso.


Uma parte razoável da comunidade acreditava que o tamanho do bloco de transações do bitcoin deveria ser radicalmente aumentado, passando de 1MB para 2MB, 4MB ou até mesmo 8MB. No entanto, tal alteração não seria compatível com a versão de 1MB que a rede roda normalmente, exigindo um hardfork e a necessidade de consenso mencionada.


Embora pareça banal, tal mudança poderia trazer outras consequências para o delicado equilíbrio da rede, e a maior parte da comunidade preferiu a implementação do Segregated Witness, um softfork que retirou parte das informações transacionais do corpo do bloco e, na prática, possibilitou aumentar o armazenamento de 1MB para 1.4MB. Além do SegWit, a abordagem das sidechains para resolver o problema de escalabilidade foi o desejo da maioria.


O conservadorismo da maioria irritou uma parte da comunidade, que resolveu pegar o código-fonte original do bitcoin, fazer as alterações que julgava necessárias e, diferentemente de outros criptoativos que começam seu “blockchain do zero” ou de um bloco gênese, decidiu que o Bitcoin Cash seria um fork do blockchain do bitcoin: a partir do bloco 478558, o blockchain bifurcou, minerando bitcoin em uma direção e bitcoin cash em outra.




foto artística de moeda bitcoin sobre uma placa de dados que simboliza o blockchain

Na prática, as “moedas” foram duplicadas: quem tinha 1 bitcoin em uma carteira naquele momento, também tinha um 1 bitcoin cash no mesmo endereço de carteira. Curiosamente, não houve uma desvalorização expressiva do bitcoin na época, cujo preço se manteve mais ou menos estável.


Como alteração imediata, o tamanho do bloco do bitcoin cash foi para 8MB, oito vezes maior do que do projeto original. Além disso, alterações no algoritmo de ajuste de dificuldade da mineração foram necessárias, permitindo que mineradores pudessem migrar facilmente de bitcoin para bitcoin cash.


Em novembro de 2018, houve novamente um impasse, dessa vez na comunidade do Bitcoin Cash. De um lado, parte da comunidade liderada por Roger Ver, conhecido como Bitcoin Jesus, e, de outro lado, o polêmico Craig Wright, australiano que alega ser Satoshi Nakamoto (e foi apelidado pela comunidade de Faketoshi). O fork deu origem ao Bitcoin ABC de Roger Ver (que posteriormente ganhou o direito de continuar sendo chamado de Bitcoin Cash, sigla BCH) e ao Bitcoin SV (Satoshi Vision, BSV) de Craig Wright.



Bitcoin Gold (BTG)


Uma outra parte da comunidade Bitcoin acredita que, com o aumento crescente do hashrate e a necessidade de se minerar com ASICs cada vez mais poderosas, a rede de mineração está cada vez mais concentrada em poucas partes que possuem recursos financeiros para tal. Dessa maneira, tais partes poderiam impor seus interesses políticos e econômicos, arruinando assim a característica mais importante de um blockchain, a descentralização e o equilíbrio de forças dos participantes.


Vencida pela vontade da maioria, essa parte da comunidade repetiu o processo feito pelo Bitcoin Cash, alterando o código-fonte para atender às suas necessidades e minerando um bloco do blockchain do Bitcoin de número 491407 em outra direção, bifurcando novamente a rede de blocos. Mais uma vez, as carteiras foram duplicadas e quem tinha bitcoins na ocasião possuía também Bitcoin Gold (BTG).



Segundo BitcoinGold (2017) em seu papel, a principal mudança realizada é a troca do algoritmo de prova de trabalho de SHA256 (usado no Bitcoin e BitcoinCash) para EquiHash. Tal mudança tira a obrigatoriedade de minerar usando ASICs, dando uma chance real àqueles que queiram minerar com GPUs (placas de vídeo) como nos velhos tempos, tornando o processo de mineração mais democrático.



Litecoin (LTC)


O tempo de confirmação de transações dos blocos de bitcoin sempre foi fixado em dez minutos, o que impossibilita que sejam usados para pequenas transações. O alto tempo para confirmação não permite pagar um cafezinho com bitcoins, por exemplo. O volume máximo de 21 milhões de bitcoins torna a moeda deflacionária, fazendo com que poucos centavos tenham muito poder de compra, tornando difícil trabalhar com frações da criptomoeda (o bitcoin pode ser fracionado até a oitava casa decimal, mas, convenhamos, é difícil usá-lo como unidade de medida quando algo vale 0,00000001 bitcoin ou 1 satoshi).


Se o bitcoin é o ouro digital, o projeto do Litecoin (LTC), iniciado apenas dois anos depois pelo ex-funcionário da Google, Charles Lee, se propõe a ser a prata. Criado a partir do código-fonte do bitcoin, as principais mudanças foram no algoritmo de prova de trabalho e no tempo de confirmação fixado em dois minutos e meio.


Diferentemente do bitcoin, cujo limite foi fixado em 21 milhões de unidades, o projeto Litecoin estabeleceu como limite 84 milhões de unidades, ou seja, 4 vezes mais.

Por ser uma comunidade menor e mais ousada, o projeto se tornou um excelente piloto para melhorias que posteriormente foram incorporadas ao bitcoin. O projeto foi o primeiro entre os principais criptoativos a implementar o SegWit e, segundo Russell (2017), foi o primeiro a realizar uma transação na Lightning Network.



Ripple (XRP)


O Ripple é uma proposta muito diferente das demais sob diversos aspectos. Para começar, seu controle é centralizado na empresa que o criou, a Ripple Labs, Inc. Seu real valor é ter estabelecido um sistema de pagamentos do tipo RTGS (Real-Time Gross Settlement), que são sistemas que transferem remessas de dinheiro de um banco a outro em tempo real, com segurança e de maneira irrevogável. O sistema da empresa se coloca como uma opção de transferência financeira muito mais rápida, barata e confiável do que o Western Union (o sistema de dinheiro dos EUA) e a rede SWIFT, usada tradicionalmente para remessas internacionais.


No sistema de pagamentos Ripple, trafegam tokens chamados de ripples (XRP). Segundo Aziz (s.d.), a diferença entre uma criptomoeda e o token é estrutural: enquanto criptomoedas possuem seu próprio blockchain separado, tokens operam no topo de um blockchain e podem ser gerados mais facilmente, podem compartilhar um mesmo blockchain com outros tokens, além de serem utilizados na criação de aplicações descentralizadas.


Outra controvérsia é o fato de que os tokens ripples (XRP) são “pré-minerados”; eles não são gerados pelo processo de mineração e gradualmente colocados em uso, eles já estão disponíveis. De acordo com a Coinmarketcap (2019b), existem mais de 43 bilhões de ripples disponíveis.



Dash (DASH)


Por se tratar de um blockchain aberto, o Bitcoin mantém apenas a identidade de seus usuários em sigilo, pois cada carteira é identificada com um número hexadecimal. No entanto, os saldos de todas as carteiras e transações realizadas ficam totalmente abertos para quem quiser ver.


O criptoativo Dash (DASH) propõe um tipo diferente de blockchain que mantém o saldo e histórico de transações em sigilo, além de transações que podem ser instantaneamente confirmadas. Outro diferencial é um modelo de incentivo que não recompensa apenas os mineradores, mas também os masternodes responsáveis por validar e armazenar o blockchain e desempenhar um papel importante no ecossistema.



Venezuela e a adoção de criptoativos como moeda


Em “Desestatização do Dinheiro” (HAYEK, s.d.), o austríaco Friedrich August von Hayek, vencedor do prêmio Nobel de Economia de 1974, vislumbra um cenário extremamente radical: o que aconteceria se governos permitissem que a iniciativa privada emitisse e comercializasse moedas? O economista defendia, em seu trabalho realizado no final da década de 1980, que as pessoas migrariam para o dinheiro privado, pois este teria inúmeras vantagens em relação ao dinheiro estatal e que, em uma realidade multimonetária, a própria concorrência entre elas e as forças do mercado evitariam problemas como sua depreciação por excesso de oferta.


Infelizmente, Hayek não viveu o suficiente para ver o surgimento dos criptoativos iniciado pelo Bitcoin em 2009 (o autor faleceu em 1992). Entretanto, é fato que, em países como o Brasil, a alta volatilidade dos preços acaba desencorajando sua adoção como forma de pagamento para um produto ou serviço, restando a eles sua função como reserva de valor. A existência de leis que obriguem o curso forçado das moedas fiduciárias impede a liberdade econômica de receber o salário e gastá-lo na moeda de nossa escolha, logo, as ideias do economista permanecem radicais, mesmo trinta anos depois.


Mas será mesmo? Pois existe um país no mundo em que a realidade da Hayek parece estar se materializando, não exatamente por liberdade econômica, mas por uma questão de sobrevivência: a Venezuela.


O país cometeu vários equívocos econômicos ao longo de décadas, mas provavelmente o mais grave deles foi praticamente definir um único commodity como produto de exportação: o petróleo. Embora o país possua as maiores reservas de petróleo do mundo, a queda do preço do barril do patamar de cem dólares em Setembro de 2014 para abaixo de quarenta dólares em Janeiro de 2016 (MACROTRENDS, s.d.) fez o país entrar em colapso.


Sem dinheiro para honrar suas dívidas, a saída encontrada é típica de países de terceiro mundo: ligar as “impressoras de dinheiro” e imprimir mais dinheiro. O resultado é inimaginável até para um brasileiro: a taxa anual de inflação do bolívar atingiu 2,3 milhões por cento em Fevereiro de 2019 (TRADINGECONOMICS, s.d.). A foto da Reuters abaixo ficou famosa em meados de 2018 e ilustra bem a situação em que o país chegou: era mais barato usar o papel-moeda do que papel higiênico para, digamos, higiene pessoal.



Se, em situações similares, países como a Argentina ou o Brasil se refugiaram em moedas estrangeiras (como o dólar), a situação na Venezuela é um pouco diferente. Como pode ser lido neste comunicado do governo britânico (UNITED KINGDOM, s.d.), dólares são trocados por bolívares em casas de câmbio oficiais controladas pelo governo para a comodidade de turistas, não havendo facilidade para os próprios venezuelanos realizarem reserva de valor em moedas estrangeiras.


Embora o próprio governo venezuelano tenha criado sua própria criptomoeda lastreada em barril de petróleo, o Petro (KHATRI, 2018), a descrença do povo venezuelano por moedas controladas por seu governo parece ter chegado ao auge.


Entretanto, quem prosperou nesse ambiente caótico não foi o famoso Bitcoin. Sua curva de aprendizado alta, as altas taxas de rede atingidas pelo Bull Market de 2017 e sua compensação de transações de blocos minerados de dez em dez minutos o tornaram inviável em uma situação de extrema pobreza como a atingida pelo país. Quem atendeu à demanda do país foi outro criptoativo, o Dash.


O criptoativo Dash possui uma funcionalidade chamada de InstantSend, que permite a compensação de transações em poucos segundos; as taxas de rede na Dash são 215 vezes menores que no Bitcoin, custando 0,01 DASH ou 28 centavos de dólar em Novembro de 2017 (DASH, 2017) e o problema da curva de aprendizado do venezuelano foi resolvido pelo engenhoso esquema de governança da moeda.


A Dash é uma DAO, uma Decentralized Autonomous Organization ou uma organização autônoma descentralizada cuja recompensa pela mineração de blocos é dividida da seguinte maneira: 45% é destinada aos mineradores que validam as transações em um mecanismo similar ao do Bitcoin, o consenso de rede através de prova de trabalho; outros 45% são destinados aos chamados masternodes que, entre outras atribuições, podem votar pelo destino dos 10% restantes.


Quaisquer propostas podem ser submetidas à comunidade DASH e são votadas pelos masternodes (qualquer um que possua 5000 DASH pode se tornar um) e, em caso de aprovação, os fundos são liberados automaticamente, e foi exatamente o que os venezuelanos fizeram, submetendo propostas de conferências, meetups, sistemas de pagamento, entre outros. Existe até mesmo um número de telefone que os venezuelanos podem ligar para tirar quaisquer dúvidas a respeito do DASH (WILLIAMS-GRUT, 2018).


Equipes foram criadas para realizar uma verdadeira “evangelização” dos comerciantes, batendo de porta em porta, ensinando em poucos minutos como pequenos e grandes comércios podem baixar carteiras e utilizar o DASH como forma de pagamento.


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